Tuesday, September 12, 2006

Aikakone (III)

Segunda fatia das 365 do diâmetro da elipse que continua a correr:


19hXX’XX’’

Duzentos dezasseis mil trezentos e vinte e oito segundos passados a ler as folhas dos públicos segredos, sentada às quinze horas exactas da sala onde espero.
Aguardo pela minha vez com o veterinário das almas.
O mesmo fazem os meus colegas dentro deste sistema de pontos espaciais.


19h21’XX’’

Duzentos dezasseis mil trezentos e vinte e nove segundos.
O tempo de espera do olhar andante que está aqui sentado, às nove e um quarto.

19h33’00’’

Uma alma sem cálcio contempla-se no olho da verdade, às dezassete horas. Também espera.
Eu insisto nos meus cálculos: penso estatisticamente numa distribuição da curva normal e faço as contas à média e à variância das minhas sensações para prever, com uma margem de erro de três por cento, que serei feliz passadas sessenta mil milésimas de segundo.
Certo.

19’50’58’’

…sou a Laika. Sim, sou a cadela mais uma vez perdida pelo espaço da minha urbe.
O meu diagnóstico?: fêmea calculista com astigmatismo do coração.

20h20’39’’

Astigmatismo do coração. Não sou a culpada quando os meus óculos de quartzo fracassam…
…o certo é que não quero mais cristais.
Quero dar o salto atrás, a cambalhota mortal: encontrar o passado dos vidros, esse que descubro sempre que ele me toca e a minha mente detém o cálculo de coordenadas. Deixo-me levar pelas voltas do jarro dos momentos…

22h19’XX

Penhora de A pela fome de B e de B pela fome de C e… mais uma volta.
Sou o eixo, o ponto de encontro das rotineiras lanças. Sou a sua origem e simultaneamente a sua vítima…

XXhXX’XX’’

¿Sabía usted que en un día terrestre completo existen por lo menos nueve momentos, nueve, en los que el minutero se funde con el horario?.

…las doce y media, por ejemplo.

Aikakone (II)

Fatia qualquer das 365 do diâmetro de uma das elipses que já correram:


29/02/198?

A minha particular colecção de átomos farta-se da vida aquática.
Abre a porta com esforço e inicia-se a temporada de exposições na galeria da minha personalidade.

1 hora, 19 minutos post-meridiem

Não foram poucas as vezes em que maldisse essa charneira entre a paz que era e a guerra do meu agora.

Mas hoje não.
Amanhã talvez. Se houver amanhã.
O quê é o amanhã?

Isto é amanh...ã

Isto ainda mais.

Isto… também.

Aikakone (I)

Primeira fatia das 365 do diâmetro da elipse corrente:

5h

Novas flechas da rotina fazem pontaria no alvo que eu sou.
Aceito o seu impacto, assim como a dor já habitual que invade o centro do meu corpo…

5h5’

Renuncio ao meu inferno rectangular e dirijo o meu carro de combate à cozinha, localizada às sete e meia exactas.

5h5’20’’

Encho um copo com uma pedra roubada no lar de Neptuno.
Tomo o meu remédio compacto.
Observo.

5h5’29’’

À uma e meia… noroeste do meu ser… lá está ele.
Continua a aproveitar a promoção especial que Morfeu sempre faz aos homens… exclusivamente aos homens… imediatamente após a tal “Happy Hour”.

3h30’20’’ atrás

A pilha do meu relógio. Começa a monótona valsa do ponteiro único.

3h30’10’’ atrás

Localizo a sua mão às doze horas em ponto do eixo das minhas vértebras.

3h30’08’’ atrás

Verifica-se a descida da mão intrusa, sentido anti horário… direcção seis horas… activar defesas.

3h29’30’’ atrás

Prevê-se a habitual entrada de um descendente da mão intrusa, às seis horas e um minuto, daqui a um segundo…



3h29’29’’ antes

Maktub[1]

3h29´10´´ antes

ADVÉRBIO: Palavra que qualifica a acção do verbo.
Existem advérbios de lugar, de quantidade, de modo… lentamente…devagar…rapidamente…depressa… advérbios de tempo… raramente, frequentemente, sempre. Nunca.

3h27’30’’ atrás

Esgota a energia da bateria. Para o meu relógio.

3h25’ atrás

Chegada de Morfeu às doze em ponto do eixo das suas vértebras. Promoção especial, only for men…
Repousar armas.

3’24’30’’ atrás

A vítima jaz virada, na direcção uma hora, ali… nesse campo de batalha paralelo ao íman do mundo.




7h45’

Deixo-me levar com frequência pelo camião de gado humano. É o caso.
A dor do centro do meu corpo alivia-se paulatinamente com o veneno que emerge da maça do meu peito.

8h35’10’’

Sentada como estou na razão do meu salário, consigo adivinhar, logo à minha direita, o futuro do meu dia.


?

Falha o sistema de coordenadas, como sempre acontece quando ele está por perto. A força do seu campo magnético descontrola por completo a minha bússola…

…mas o que tem de ser, será…


17h29’?

Maktub

17h26’07’’?

¿Un minuto? ¿Treinta segundos? ¿Cuatro horas?
¿Una vuelta completa en el jarrón de los momentos?
La eternidad del instante… la rumba de mis agujas.
¿La razón primera? Lo que no comprendo…

…el motor de mi ciclo…

Maktub, maktub, maktub…


[1] Estava escrito.